Tive um AVC e os exames deram "normais": A caçada pela causa oculta (e como evitar o próximo)

Receber alta do hospital após um AVC é um alívio, mas carrega uma angústia silenciosa que vejo nos olhos de muitos pacientes: o medo da repetição. A frase mais assustadora que você pode ouvir não é um diagnóstico ruim, mas sim: "Não sabemos exatamente o que causou isso". Se você ou um familiar passou por um derrame e saiu com o rótulo de "causa indeterminada", saiba que essa não precisa ser a resposta final. A neurologia moderna atua como uma investigação de detetive de elite, e muitas vezes, o culpado está escondido onde o exame básico não alcançou.

1/4/20264 min read

Por que encontrar a causa muda tudo?

Muitos pacientes chegam ao meu consultório acreditando que o tratamento do AVC é "padrão": afinar o sangue e controlar a pressão. Mas isso é apenas a ponta do iceberg.

Na medicina de precisão, tratamos a etiologia — ou seja, a raiz do problema.

  • Se o coágulo veio do coração, precisamos de um tipo de anticoagulante.

  • Se veio de uma "sujeira" na carótida, talvez precisemos de cirurgia ou stent.

  • Se foi uma inflamação nos vasos, o tratamento é imunológico.

Tratar um paciente sem saber a causa é como tentar secar o chão com a torneira ainda aberta. O artigo recente da Continuum (a maior revista de educação continuada em neurologia do mundo), que analisei esta semana, reforça: diagnósticos precisos previnem novos sustos.

O Coração Silencioso: Quando o Eletrocardiograma Mente

Você fez um eletrocardiograma no hospital e deu normal. Fez um Holter de 24 horas e deu normal. Então seu coração está livre de culpa, certo? Errado.

Existe uma condição chamada Fibrilação Atrial Paroxística. Pense no sistema elétrico do seu coração como uma lâmpada com mau contato. Ela funciona bem 99% do tempo, mas de vez em quando, ela "pisca" — o coração treme em vez de bater, o sangue fica parado e forma um coágulo.

O estudo mostra que monitores de longo prazo (pequenos chips que podemos implantar sob a pele ou monitores externos de longa duração) detectam 6 a 7 vezes mais arritmias do que os exames rápidos feitos no hospital. Se o seu AVC não tem explicação, talvez só não tenhamos olhado para o seu coração por tempo suficiente.

A "Espinha" dentro da Artéria: Placa Vulnerável

Todos nós ouvimos falar de "artérias entupidas". Geralmente, preocupamo-nos quando a artéria está 70%, 80% fechada. Mas a neurologia descobriu algo traiçoeiro: a Placa Vulnerável.

Imagine que a placa de gordura na sua artéria carótida (no pescoço) é como uma "espinha" interna. Às vezes, ela não é grande o suficiente para entupir o cano, mas ela está inflamada e cheia de líquido (núcleo lipídico). Se essa "espinha" estoura, ela solta fragmentos que vão direto para o cérebro, causando o AVC.

Hoje, usamos Ressonância Magnética de Parede de Vaso (Vessel Wall Imaging) para ver não só o buraco da artéria, mas a saúde da parede dela. É a diferença entre olhar um túnel de longe e inspecionar os tijolos de perto.

Jovens e Causas Raras: O Fator "Mecânico"

Em pacientes mais jovens, a causa raramente é colesterol alto. Precisamos investigar traumas mecânicos.

Você sabia que movimentos bruscos no pescoço — seja em um acidente de carro, uma lesão esportiva ou até manipulações vigorosas de quiropraxia — podem causar uma Dissecção Arterial? Isso é um pequeno rasgo na camada interna do vaso que gera coágulos. É uma causa frequente e muitas vezes esquecida se o médico não perguntar especificamente sobre dores no pescoço ou traumas recentes.

Mitos vs. Verdades sobre a Causa do AVC

Baseado nas evidências mais atuais da American Academy of Neurology:

O que dizem por aí (Mito)O que a Ciência diz (Verdade)"Meus exames do coração no hospital foram normais, então não é cardíaco."

A Fibrilação Atrial pode ser intermitente. Monitoramento de meses pode ser necessário para flagrá-la9.

"Só devo operar a carótida se ela estiver muito fechada."

Placas "instáveis" ou ulceradas podem causar AVC mesmo com obstrução leve (<50%). A qualidade da placa importa tanto quanto o tamanho.

"AVC em jovem é sempre genético."

Causas genéticas puras são raras. Dissecções (lesões no vaso), PFO (buraco no coração) e uso de substâncias são mais comuns.

Perguntas Frequentes no Consultório

1. O que é o "Forame Oval Patente" (PFO) que tanto falam?

É um pequeno "buraco" no coração que comunica o lado direito com o esquerdo. Todo bebê nasce com ele, mas ele fecha na maioria das pessoas. Em alguns, ele fica aberto, permitindo que coágulos das pernas passem direto para o cérebro. Em pacientes jovens selecionados, fechar esse buraco reduz drasticamente o risco de novo AVC.

2. Devo fazer teste genético para saber se terei outro AVC?

Na maioria dos casos, não. Testes genéticos indiscriminados têm baixo rendimento. Eles são indicados apenas quando há uma história familiar muito forte, múltiplos AVCs sem causa ou suspeita de doenças raras como CADASIL ou Fabry.

3. O estresse causou meu AVC?

O estresse agudo pode ser um gatilho para elevar a pressão ou desencadear uma arritmia, mas raramente é a única causa. Ele geralmente "aperta o gatilho" de uma arma que já estava carregada (pressão alta não tratada, diabetes, sedentarismo).

Conclusão e Próximo Passo

Receber um diagnóstico de "AVC Criptogênico" (sem causa determinada) não significa que não há causa. Significa apenas que o método padrão não a encontrou — ainda.

Embora este artigo traga os avanços mais recentes da literatura médica, cada cérebro é um universo único. O que funciona na estatística precisa ser validado no exame clínico individual.

Sua lição de casa hoje é: Olhe para o seu relatório de alta. Se a causa do seu AVC não está clara e específica, ou se você ainda tem dúvidas sobre sua prevenção, talvez seja a hora de aprofundar a investigação.

Você sente que sua investigação parou no "básico"? Vamos agendar uma avaliação detalhada para buscar essas respostas.